De ameaça a oportunidade: como a Nestlé quer lucrar com a febre de Ozempic e Mounjaro
Gigante de alimentos usa inteligência artificial e pesquisas científicas para desenvolver produtos voltados a consumidores que utilizam medicamentos para perda de peso
A popularização dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound, está provocando mudanças no mercado de alimentos. Enquanto investidores avaliam o possível impacto desses remédios sobre o consumo de produtos industrializados, a Nestlé decidiu enxergar a transformação como uma oportunidade de negócio.
A gigante do setor alimentício está usando inteligência artificial, pesquisas clínicas e ciência nutricional para desenvolver alimentos e bebidas destinados às necessidades de consumidores que utilizam medicamentos para emagrecimento.
A estratégia considera efeitos associados à perda rápida de peso, incluindo a redução da massa muscular e outras mudanças nutricionais que podem acompanhar o processo.
A nova oportunidade criada pelos medicamentos GLP-1
A rápida expansão dos medicamentos fabricados por empresas como Novo Nordisk e Eli Lilly aumentou a preocupação de investidores sobre uma possível redução permanente na demanda por alimentos industrializados, lanches e bebidas.
Os medicamentos reduzem o apetite e já conquistaram milhões de consumidores. Segundo dados citados pelo Boston Consulting Group, aproximadamente 16 milhões de americanos utilizam medicamentos dessa classe, com expectativa de crescimento significativo até o final da década.
Para a Nestlé, porém, a mudança no comportamento alimentar também representa a possibilidade de criar uma nova categoria de produtos.
A companhia afirma que utiliza inteligência artificial para analisar pesquisas clínicas, identificar combinações de nutrientes e desenvolver alimentos e bebidas direcionados a esse público.
Proteínas e nutrientes ganham espaço
Uma das preocupações estudadas pela empresa é a perda de massa muscular durante processos de emagrecimento rápido.
A Nestlé afirma que seus cientistas pesquisam maneiras de desenvolver produtos capazes de contribuir para a manutenção da massa muscular, hidratação e alimentação adequada.
A empresa também começou a adicionar proteína de colágeno a produtos da marca Vital Proteins, mirando preocupações relacionadas à pele, cabelos e unhas.
Nos Estados Unidos, a divisão da Nestlé lançou o Boost Advanced Nutrition Shake, com 35 gramas de proteína. Na Ásia e na Austrália, a companhia apresentou uma versão mais proteica da bebida maltada Milo, chamada Milo PRO High Protein.
A estratégia não se limita aos consumidores que estão atualmente utilizando os medicamentos. A empresa também patenteou combinações de ingredientes destinadas a pessoas que apresentam aumento da fome depois de interromper o tratamento com medicamentos à base de GLP-1.
Inteligência artificial participa da criação dos produtos
A tecnologia é uma das principais ferramentas utilizadas pela Nestlé nessa estratégia.
A empresa desenvolveu sistemas internos capazes de analisar pesquisas científicas, identificar tendências e auxiliar no desenvolvimento de novos produtos a partir de um banco de aproximadamente 120 mil receitas.
Entre as ferramentas está a plataforma interna Food Genie, utilizada por cientistas e desenvolvedores para prever o desempenho de receitas e identificar possibilidades de reformulação.
A inteligência artificial também é empregada para simular a reação dos consumidores a novos produtos e avaliar determinadas alegações relacionadas à saúde antes que os itens cheguem às prateleiras.
Além disso, a tecnologia ajuda a companhia a acompanhar redes sociais e identificar mudanças nos hábitos e interesses dos consumidores.
Especialistas questionam a necessidade desses produtos
Apesar da estratégia comercial, nem todos os especialistas estão convencidos de que alimentos desenvolvidos especificamente para usuários de medicamentos para perda de peso ofereçam vantagens significativas em relação aos alimentos convencionais.
A nutricionista Amanda Avery, professora associada de nutrição e dietética da Universidade de Nottingham, questiona a necessidade de produtos mais caros quando alimentos tradicionais também podem fornecer proteínas e nutrientes.
Entre os alimentos citados estão carnes, peixes, ovos, laticínios, feijões, nozes e outras leguminosas.
Mesmo fazendo ressalvas, Avery considera que produtos direcionados especificamente aos usuários de medicamentos GLP-1 provavelmente encontrarão consumidores.
O mercado de alimentos está mudando
A estratégia da Nestlé mostra como a popularização dos medicamentos para perda de peso pode provocar transformações muito além do setor farmacêutico.
Empresas de alimentos passam a observar mudanças no apetite, nas necessidades nutricionais e nos hábitos de consumo para desenvolver novos produtos e reposicionar marcas existentes.
Ao combinar inteligência artificial, pesquisas científicas e análise de comportamento, a Nestlé tenta transformar uma possível ameaça ao mercado tradicional de alimentos em uma nova fonte de crescimento.
Perguntas frequentes
Quais medicamentos estão impulsionando essa mudança?
Entre os principais estão Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound, medicamentos associados à classe dos GLP-1.
Por que a Nestlé está desenvolvendo produtos específicos?
A empresa busca atender necessidades que considera associadas à perda rápida de peso, incluindo manutenção da massa muscular, hidratação e nutrição.
Como a inteligência artificial é utilizada?
A Nestlé usa IA para analisar pesquisas, identificar combinações de nutrientes, desenvolver receitas, simular reações dos consumidores e acompanhar tendências nas redes sociais.
A estratégia é consenso entre especialistas?
Não. Alguns especialistas questionam se esses produtos oferecem benefícios que não poderiam ser obtidos por meio de alimentos convencionais.
Uma nova disputa pela alimentação dos consumidores
O avanço dos medicamentos para perda de peso está criando um novo cenário para a indústria alimentícia. Para a Nestlé, a mudança representa uma oportunidade para desenvolver produtos adaptados a um público que cresce rapidamente.
A empresa aposta que a combinação entre ciência nutricional e inteligência artificial poderá ajudá-la a acompanhar essa transformação e criar novas categorias de alimentos. Ao mesmo tempo, o debate sobre o real benefício desses produtos mostra que a nova estratégia também terá de convencer consumidores e especialistas de que existe valor além do marketing.



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